• Leonardo Brant

O Sujeito Imaginado

Atualizado: 13 de Out de 2018

As telas talvez sejam as companheiras mais freqüentes de crianças e jovens nos dias de hoje. É também pelos mais variados suportes de exibição audiovisual que as pessoas se relacionam com o mundo, concretizam suas experiências de vida, visualizam e compõem o seu universo particular. Da relação com os conteúdos audiovisual vêm muitos dos elementos que participam da atribuição de sentidos aos fenômenos cotidianos e que compõem a imaginação e a fantasia, pelo menos nos sujeitos contemporâneos ocidentais.



O imaginário individual de cada um de nós sofre influência das imagens, linguagens, formatos, mensagens e valores que compõem a cultura na qual estamos inseridos, que nos toca principalmente pela mediação da família, da escola, dos amigos e dos meios de comunicação.

As mensagens transmitidas por esses meios vêm carregadas de interesses de quem produz os conteúdos, de quem distribui, exibe e patrocina uma obra. A alfabetização audiovisual nos auxilia a compreender como esses interesses se manifestam através das diversas linguagens, ideologias, gramáticas, formatos, discursos subliminares, ritmos e formas. Ela prepara o indivíduo para lidar com suas influências, auxiliando-o na tarefa de estabelecer com as telas e seus conteúdos uma relação crítica e não passiva, de objeto a ser manipulado por um sujeito ativo.


Contudo, muitas vezes essas posições se invertem – o sujeito ficando no pólo passivo e o conteúdo audiovisual no ativo. A tela tem, então, potencializada sua já imensa capacidade de conformação do imaginário, passando a assumir um peso ainda maior na definição do sujeito com o mundo com a vida concreta.


O convívio em ambientes sob forte influência da televisão e da Internet, por exemplo, onde a visão de mundo é mediada e construída por grupos destituídos de qualquer compromisso público, com a formação de cidadãos livres e críticos, encurrala o indivíduo nos espaços imaginários constituídos a reboque de interesses privados.


Vivemos numa sociedade do espetáculo. O culto às celebridades, que encontra nas telas seu principal veículo de disseminação, traz a simulação de um mundo sem conflitos, problemas e angústias, onde só há espaço para a glória e o sucesso. O status adquirido com roupas da moda, carros potentes e blindados, mansões com piscina, é ilusoriamente proclamado suficiente para espantar a dor e o sofrimento da vida cotidiana.

Nesse mundo imaginário idealizado, criado e reforçado por meio dos produtos audiovisuais, os objetos ganham vida e atribuem valor ao ser humano, cada vez mais destituído de subjetividade. Vestir uma calça jeans de marca, fumar um cigarro, ou dirigir um automóvel são atos distintivos de determinados sujeitos, que o destacam perante outros, sem brilho e sorte. Eles merecem tratamento de destaque, pois são mais importantes que os outros. O poder de consumo, em última análise, define seu status.


O cinema, a televisão e a Internet adquirem maior ou menor poder de interferência na subjetividade de uma pessoa, de acordo com uma série de fatores que contribuem para sua formação emocional e intelectual. Todos os conteúdos audiovisuais trazem consigo determinado compromisso com esse processo de formação.


Se por um lado ajudam a aparelhar o indivíduo de sentido crítico, auxiliando na ampliação de sua visão de mundo e na compreensão da complexidade dos fenômenos que o circundam, por outro podem acorrentá-lo a uma lógica binária e linear, em um sistema de valores fechado. Tudo o que acontece no mundo acaba passando pelo crivo e a interpretação de alguns mediadores da verdade, nos meios de comunicação, que atribuem valor de certo e errado ao que se vê e ao que se sente.


A poltrona do cinema, o sofá de casa ou a cadeira do escritório são os lugares da recepção, do conforto, do mínimo esforço. O cidadão pós-moderno não precisa pensar, elaborar, embrenhar-se nos labirintos da subjetividade em busca de respostas para a guerra, a violência das ruas, a política e a economia. As soluções são apresentadas por heróis, fictícios ou “reais”, solução política mais comum para as mazelas da nossa sociedade.


A tela, importante mediadora da relação do indivíduo contemporâneo com o mundo, complementa e, até mesmo, pode substituir as interações interpessoais no âmbito da família, da escola e da comunidade. E modifica a sensibilidade do olhar, alterando a qualidade de interação do indivíduo com as artes visuais – recondicionadas dentro da lógica da propaganda; com a música – agora acompanhada de videoclipes; e com a própria leitura – transformados em longa metragens ou miniséries de TV, os livros tornam-se acessórios desnecessários.


Há uma redução das narrativas que compõem o repertório imagético deste cidadão. Suas utopias são reduzidas à oferta da sensação de prazer sexual como recompensa ao consumo de elementos que auxiliam compor sua frágil personalidade. Objetos de cena, bonecos de borracha, parques temáticos, carros, roupas e acessórios, tomam o lugar de experiências e parecem propostos como tapa-buracos de uma auto-imagem nunca correspondente ao que a atual sociedade do espetáculo exige dos indivíduos.


O consumo, ou a ânsia consumista, torna-se a manifestação cultural sintomática diante de uma equação complexa, que inclui a desvalorização e a destituição do espaço público, da educação e da cultura, em contraposição ao império da economia e do mercado como balizadores do bem estar social.


Também a violência, diante da frustração desse consumismo sempre fadado à insuficiência, torna-se uma forma de expressão acolhida e alimentada pelos meios de comunicação. E constituiu-se, por si, uma forma de comunicação e expressão, sobretudo nos grandes conglomerados urbanos.


A educação de qualidade continua sendo o melhor antídoto contra esse ciclo vicioso. E precisa evoluir e se municiar de novas ferramentas e oportunidades educativas, para se aproximar e dialogar com as crianças e jovens.


A utilização de elementos audiovisuais no processo de ensino não é novidade, mas faltam literatura e referências que ajudem a sistematizar o uso desse poderoso suporte em sala de aula. E que ajudem o sujeito a lidar melhor com esses elementos fora dela.

Do seu uso mais comum, como material complementar para construção de conhecimento, até o mais avançado, como desenvolvedor de linguagem audiovisual própria, existe um leque enorme de utilizações sugeridas para auxiliar alunos e professores a ampliar a visão de mundo e conquistar autonomia em relação ao que assistem e ao que selecionam para compor seu universo particular.


O período em que vivemos é particularmente rico, cheio de novas descobertas e possibilidades de alteração das relações preestabelecidas pelos meios de comunicação de massa. Atualmente o comportamento de crianças e jovens diante das telas tem alterado sensivelmente. De receptores passaram a integrantes ativos de comunidades de conhecimento, compartilhando informações e construindo novas possibilidades de expressão e diálogo.


O jovem que lê ou assiste a um filme de Harry Potter, por exemplo, pode integrar as inúmeras comunidades de fãs e criar suas próprias histórias, trocar suas criações e incentivar novas leituras e conhecimentos com pessoas de outras partes do mundo. Esse mesmo jovem pode publicar seu vídeo caseiro no Youtube ou transmitir ao vivo um campeonato de futebol de botão na rede mundial de computadores. É claro falamos de um universo ainda restrito às famílias mais abastadas. Mas é inevitável a expansão do acesso à Internet às camadas menos privilegiadas da população.


Em pouco tempo o consumo de conteúdos audiovisuais de todas as origens, com abordagens, linguagens e temários diversos será uma realidade para uma parcela cada vez maior da população. A forma como a criança se insere nesse ambiente é vital para sua formação.


Hoje, o processo de alfabetização audiovisual adquire uma faceta importantíssima, pois tem colocado em curso a multiplicação e o enriquecimento das experiências educativas e possibilidades de aprendizado, ampliando o processo de inclusão de todas as culturas, conhecimento e formas de expressão.


Por outro lado, as partes interessadas em constituir visões homogêneas do mundo, formatadas para a manutenção de determinada ordem econômica estabelecida, trabalham a todo vapor para prolongar seus domínios pelo ambiente virtual.


Se antes o desafio da educação já era algo difícil e complexo, agora configura-se como uma zona muito mais desconfortável e cheia de incertezas, agravada ainda por um choque de gerações, que têm, muitas vezes, distanciado os professores do universo íntimo dos alunos.


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