• Leonardo Brant

Selfies e Documentários

Atualizado: 21 de Jun de 2018

Saímos do mass-media para o self-media, nos ensina Gilles Lipovetsky no excelente livro Cultura-Mundo. O documentário contemporâneo segue essa tendência e se faz, cada vez mais, em primeira pessoa. Colocar-se diante das câmeras, narrar a história sob uma perspectiva íntima e única é desejável. Hoje em dia é difícil aceitar a “voz de Deus”, a verdade absoluta, ditada por quem sabe contar uma história com isenção, reunindo todos os pontos de vista. No lugar, parece muito mais autêntico assumir a existência de um sujeito por trás da câmera, com suas crenças, fragilidades e incertezas. É algo que nos transmite mais credibilidade. O documentário performático ganha espaço e assume diferentes nuances, explorados por um número crescente de documentaristas.

Fiz recentemente uma viagem de 40 dias à Índia para acompanhar minha esposa Graziela Mantoanelli em curso de imersão em yoga. Levei na mala livros e mais livros, muitos filmes que gostaria de ver, rever, estudar. Estou iniciando a pesquisa para uma série documental chamada Gandhi&Eu, ou Gandhi&Me em inglês, que prevê uma série de jornadas investigativas, a começar pela África do Sul, onde Gandhi começou a colocar em prática as suas propostas de não-violência e busca pela verdade. Já estou pesquisando diversas maneiras de fazer um diário de bordo, para antecipar o material do filme e começar a aglutinar e engajar o público interessado nessa história. E assim comecei a experimentar o Instagram como uma ferramenta de apoio para a realização do documentário.


Por consequência surgiu o autoretrato e algumas reflexões sobre a cultura do selfie. Se por

um lado abrir-se, apresentar suas inquietações é uma forma poderosa de comunicação, por outro abre uma fenda enorme. Para mim o selfie é muito incômodo, pois coloca o ego em evidência, com todos os seus venenos. Eu relutei muito em fazer o primeiro selfie, depois confesso que tomei gosto, mesmo me sentindo pra lá de ridículo. Fiz várias fotos de mim mesmo, talvez seduzido pela vontade de compartilhar alguns sentimentos, ou mesmo por puro exibicionismo. Mas o meu sorriso amarelo me trai e denuncia...


O ambiente da rede social me envolve de tal maneira, que sinto-me compelido a me apresentar para o público sempre com a felicidade estampada, em um lugar deslumbrante, de causar inveja. E não importa o quanto eu esteja atolado na merda, perdido, solitário. Se eu fizer o plano e o filtro perfeitos eu estarei sempre pronto para impressionar, ganhar likes. Só o que importa são as paisagens interessantes em segundo plano para, o cenário perfeito para o meu exibicionismo compulsivo. Não importa se eu não entendo absolutamente nada da cultura que estou retratando, da pessoa que sai abraçada comigo na foto. Tudo isso não passa de um pano de fundo para o meu exercício narcísico. Com as minhas selfies, estarei sempre me fazendo de entendido, culto, dono dos acessos vip. E já que isso se tornou uma forma contemporânea de auto-afirmação e auto-estima, lá vou eu expor o meu sorriso amarelo, ainda que ele não seja a coisa mais linda do mundo.


O selfie faz parte da vida dos feios, sujos e malvados, mas ele é o delírio do Olimpo. Os Deuses e os semi-deuses adoram rir de nós, de como somos realmente ridículos. Para fazer a alegria deles fiz uma série de selfies publicada em meu perfil no Instagram @leonardobrant


O qual será a pauta do meu self-media particular? Exercícios matinais, pratos de comida, cliques na balada. Engrossarei o caldo dos influenciadores digitais, os semi-deuses do momento, ou podemos usar a mesma ferramenta aprofundar o debate sobre a cultura da violência e a cultura da mentira e da hipocrisia? Gandhi&Eu nasce com o desafio de falar em primeira pessoa e também como um antídoto permanente contra o veneno do ego contra tudo o que realmente importa na vida.


#docmakers #gandhieeu #gandhiandme #selfie


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©2020 by Leonardo Brant

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