• Leonardo Brant

A Urgência do Documentário

O Brasil vive um grande momento na indústria audiovisual. Isso mesmo. Recuso-me a admitir que estamos em terra arrasada. A paralisia da Ancine, independente de quanto tempo dure e qual seja a sua intensidade, não vai decretar o fim de uma indústria, mesmo que ainda em estágio de desenvolvimento.

Prêmios em Cannes, indicação ao Oscar, Netflix ampliando investimentos e uma avalanche de novos conteúdos, com padrão internacional técnico e narrativo. Os números oficiais da Ancine escondem a verdadeira revolução silenciosa que o país atravessa em termos de volume de produção e de público. E o nome dessa revolução é DOCUMENTÁRIO, que está na base da pirâmide da produção audiovisual.


Esse fenômeno não é apenas fruto de uma política de fomento setorial promovida pelo Estado, agora sub júdice, mas de uma confluência de fatores, desde o acesso a equipamentos, tecnologias de informação. Mas sobretudo o fenômeno do mercado de nicho, que permite financiar e distribuir diretamente para um público específico.


O documentário é a prainha desse oceano azul. Uma nova forma de pensar a audiência e a indústria. Há um conjunto de ferramentas disponíveis para financiar, produzir e distribuir documentários. O crowdfunding, os smartphones, os apps de edição, o YouTube e o VideoOnDemand (VoD), que permite que você assine serviços ou pague diretamente ao realizador. Esses dispositivos simplesmente não existiam há 5 anos e hoje compõem um mix inovador de realização audiovisual, que se encaixa muito bem com a potência criativa do documentário.


Com essas ferramentas em punho, é possível explorar uma grande diversidade de olhares e formas de criar e realizar filmes. Só para termos uma ideia do potencial crescente dessa disruptura, fizemos um levantamento informal e despretensioso sobre financiamento coletivo de documentários na plataforma Catarse. Nos demos conta de que desde 2011 já foram investidos cerca de R$ 3 milhões em 40 projetos.


Se entrarmos em plataformas de mobilização social como TaturanaMobi e VideoCamp, por exemplo, vamos observar um número crescente de documentários realizado à margem da fúria arrecadadora, do fomento e do controle estatais. E um volume incontestável de pontos de exibição e debates que funcionam à parte do sistema público oficial e da indústria do cinema.


O Brasil tem uma longa e respeitada tradição em documentários, com inúmeros autores e produtores no primeiro time mundial de documentaristas. O momento que o país atravessa é crítico e precisa ser amplamente documentado. Para isso precisamos multiprotagonismo e autorrepresentação em nossas telas. Os exemplos do Vídeo nas Aldeias e Afroflix, por exemplo, já demonstram essa vitalidade.


O documentário brasileiro está vivo, latente e cria inúmeras formas de se fazer presente perante o seu público, cada vez mais interessado em conteúdos de não-ficção. A conquista de um novo patamar democrático em uma sociedade altamente midiatizada como a nossa, passa por incentivar novos fazedores de documentários, em todos os lugares, da periferia à Amazônia.


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©2020 by Leonardo Brant

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